terça-feira, abril 11, 2006

Colcha de retalhos

A metáfora da colcha de retalhos há tempos me persegue mas nunca parei para explorá-la. Vamos lá...

Falar do meu mundo como uma colcha de retalhos na verdade é falar da minha relação com meu próprio mundo e meu universo paralelo. Universo interior, ulterior. Ou Uterior?
A colcha "de retalhos" está sempre em construção. Nela vou agregando os fragmentos de vida, de experiências. Uma coisa aqui, outra ali; um feixe de sol, uma borboleta, um amor proibido, um amor impossível, um desamor, um amor torto (engraçado o amor direito não dar poesia...). Sombras de árvores, cheiro de flores, terra, chão, casas tristes, casas caiadas, casas ao sol. Pessoas, olhares de pessoas, sorrisos de pessoas, até sobrancelhas de pessoas (lembrando de alguns amores). As sobrancelhas são os chapéus dos olhos. Os olhos são espaços da perder-se.
Muitas coisas coloco: coloco frases feitas, frases invertidas, frases escutadas, frases geniais; coloco palavras bonitas, coloco tristeza (como dizia o grande mestre, "é preciso um bocado de tristeza/ senão não se faz um samba não"). Coloco samba também.
Enfim, coloco tudo o que de alguma maneira me amarrou a um instante da vida. E vou tecendo a vida toda.
De maneira que esta colcha é minha veste.
Eu faço vestidos com ela, faço cenários para atuar, faço meu leito, onde me aninho.
E quem me vê, assim, quem passa por mim, vê a colcha toda, e ela pode envolver-me cada hora de um jeito. Mas só alguns se detém aos fragmentos, observa cada retalho.
Às vezes é preciso que eu a desconstrua para que os retalhos ganhem autonomia. Às vezes é preciso remexê-los, redistribuí-los, isolá-los, a depender de como quero minha alta costura.
Mas a colcha não sou eu.
Eu estaria por baixo dela. Ainda assim, desnudar-me não sei se seria possível.
Talvez seria como arrancar a pele, na qual ela talvez já esteja grudada. Talvez doesse, talvez eu não suportasse a dor e então morreria. Ou, suportando-a, esperaria o nascimento de uma nova pele, totalmente crua, pura, que fosse só eu mesma.
Mas essa já é uma outra história...