quinta-feira, junho 01, 2006

Perdi o bonde e a esperança
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
porque não? na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

(Soneto da perdida esperança. Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, maio 18, 2006

Tudo o que eu sei
sobre o amor
(romântico)
é que ele é perverso.
eu não quero o amor
classe média
nem quero o amor sobrevivência
nem o fetichismo de amor.
Fico com o amor livre dos amigos
com os meus platoamantes
e com o amor que ainda será inventado.
Não quero amor
que não é libertação.

sábado, maio 13, 2006

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você.Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu...

(Quase. Luis Fernando Veríssimo)
9 dias de Fumaça e Pati

Eu sei que você vai sentir saudade
Morrer de saudade
Pensar em nós a cada passo dado
A cada água no caminho
A cada estrela vista no céu da noite

Eu sei que você vai morrer de saudade
Cair no sono e perder-se
Mas vai renascer no outro dia
Só pra morrer de novo pensando em nós
A cada passo do caminho
A cada água no caminho

A cada estrela vista no céu.

(Lençóis, julho de 2004)

sexta-feira, maio 12, 2006

Te criei
e te adornei
com flores, perfumes,
as cores mais lindas
te subi ao topo
das coisas mais sublimes
das coisas únicas,
insubstituíveis.

Agora
vou transformar-te em monstro,
em fracassado
em pessoa pequena,
vou deformar-te o rosto,
as idéias, tudo.
E finalmente
já quase indiferente a ti
e totalmente desencantada
vou te matar
sem funeral
nem luto.
Frio

Não sei quem disse que o inferno é quente e vermelho.
O inferno só pode ser frio, e cinza sua cor.

Só que o inferno, ao contrário do inverno,
não tem sopas, vinhos, chocolates,
nem companhia debaixo do cobertor.

O inferno só pode ser como uma tarde fria,
solitária e sem sol.

Ainda bem que hoje não faz frio dentro de mim.


As cidade e as trocas

Em Chloé, uma cidade grande, as pessoas que passam nas ruas não se conhecem. Ao se verem elas imaginam mil coisas umas das outras, os encontros que poderiam se produzir entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém saúda ninguém, os olhares se cruzam um instante e logo se fogem, procuram outros olhares, não se detêm.

Passa uma jovem que faz remexer uma sombrinha que ela tem no ombro, e um pouco também o arredondado de seus quadris. Passa uma senhora vestida de preto que exibe todos os seus anos, os olhos sob um véu inquietos e os lábios que tremem. Passam um gigante tatuado; um homem jovem com cabelos brancos; uma anâ; irmãs gêmeas vestidas de coral. Entre eles alguma coisa corre, uma troca de olhares como linhas que ligam uma figura e outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até que todas as combinações em um instante estejam esgotadas, e outros personagens entram em cena: um cego com um leopardo acorrentado, uma cortesã com seu leque de plumas de avestruz, um efebo, uma mulher obesa. Assim, entre aqueles que por acaso se encontram juntos protegendo-se da chuva sob as arcadas, ou cumprimentem-se sob um toldo do bazar, ou pararam na praça para escutar a orquestra, concretizam-se encontros, seduções, abraços, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que o dedo mínimo se mexa, e quase sem levantar os olhos.

Uma vibração luxuriante atravessa continuamente Chloé, a mais casta das cidades. Se homens e mulheres se pusessem a viver seus sonhos fugidios, cada fantasma tornar-se-ia uma pessoa com quem começar uma história de perseguições, simulações, mal-entendidos, choques, opressões: e cessaria de girar o carrossel das fantasias.

(As Cidades Invisíveis. Ítalo Calvino.)

segunda-feira, maio 08, 2006

Xeque

Ou vens,
ou vou só.
Sim, sou apenas um viandante, um peregrino sobre a terra! E vocês são algo mais do que isso?

(J. W. Goethe. Os Sofrimentos do Jovem Werther)

domingo, maio 07, 2006

Esse eu tomei emprestado do blog do Sales...
http://.fragmensidade.blogspot.com/

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

— e um dia me acabarei.

Cecília Meireles. Timidez

segunda-feira, maio 01, 2006

Gosto dos amores escondidos
dos beijos roubados
dos códigos secretos dos amantes
a pele derretendo-se
e o coração disparado
no simples pensamento
da pele do outro
os braços do outro
o calor do outro

(Lençóis, 2004)
O mundo é pequeno
para o tamanho da minha mente.
Minhas vontades transbordam além de meu corpo
e são plasma ao redor de mim.
Eu as sinto na pele
e viajo
estou em todos os lugares
nos que sinto saudades
mesmo nos que nunca fui.
Isso me revolve por dentro
palpita o coração
... palpites...
Palpites em mim, Deus
e deixe-me transbordar por todo teu mundo.

(Lençóis, 2004)