Perdi o bonde e a esperançaVolto pálido para casa.A rua é inútil e nenhum autopassaria sobre meu corpo.Vou subir a ladeira lentaem que os caminhos se fundem.Todos eles conduzem aoprincípio do drama e da flora.Não sei se estou sofrendoou se é alguém que se diverteporque não? na noite escassacom um insolúvel flautim.Entretanto há muito temponós gritamos: sim! ao eterno.(Soneto da perdida esperança. Carlos Drummond de Andrade)
Tudo o que eu seisobre o amor(romântico)é que ele é perverso.eu não quero o amor classe médianem quero o amor sobrevivêncianem o fetichismo de amor.Fico com o amor livre dos amigoscom os meus platoamantese com o amor que ainda será inventado.Não quero amorque não é libertação.
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você.Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu...(Quase. Luis Fernando Veríssimo)
9 dias de Fumaça e Pati
Eu sei que você vai sentir saudade
Morrer de saudade
Pensar em nós a cada passo dado
A cada água no caminho
A cada estrela vista no céu da noite
Eu sei que você vai morrer de saudade
Cair no sono e perder-se
Mas vai renascer no outro dia
Só pra morrer de novo pensando em nós
A cada passo do caminho
A cada água no caminhoA cada estrela vista no céu.(Lençóis, julho de 2004)
Te crieie te adorneicom flores, perfumes,as cores mais lindaste subi ao topodas coisas mais sublimesdas coisas únicas,insubstituíveis.Agoravou transformar-te em monstro,em fracassadoem pessoa pequena,vou deformar-te o rosto,as idéias, tudo.E finalmentejá quase indiferente a tie totalmente desencantadavou te matarsem funeralnem luto.
FrioNão sei quem disse que o inferno é quente e vermelho.O inferno só pode ser frio, e cinza sua cor.Só que o inferno, ao contrário do inverno,não tem sopas, vinhos, chocolates,nem companhia debaixo do cobertor.O inferno só pode ser como uma tarde fria,solitária e sem sol.Ainda bem que hoje não faz frio dentro de mim.
As cidade e as trocas Em Chloé, uma cidade grande, as pessoas que passam nas ruas não se conhecem. Ao se verem elas imaginam mil coisas umas das outras, os encontros que poderiam se produzir entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém saúda ninguém, os olhares se cruzam um instante e logo se fogem, procuram outros olhares, não se detêm. Passa uma jovem que faz remexer uma sombrinha que ela tem no ombro, e um pouco também o arredondado de seus quadris. Passa uma senhora vestida de preto que exibe todos os seus anos, os olhos sob um véu inquietos e os lábios que tremem. Passam um gigante tatuado; um homem jovem com cabelos brancos; uma anâ; irmãs gêmeas vestidas de coral. Entre eles alguma coisa corre, uma troca de olhares como linhas que ligam uma figura e outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até que todas as combinações em um instante estejam esgotadas, e outros personagens entram em cena: um cego com um leopardo acorrentado, uma cortesã com seu leque de plumas de avestruz, um efebo, uma mulher obesa. Assim, entre aqueles que por acaso se encontram juntos protegendo-se da chuva sob as arcadas, ou cumprimentem-se sob um toldo do bazar, ou pararam na praça para escutar a orquestra, concretizam-se encontros, seduções, abraços, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que o dedo mínimo se mexa, e quase sem levantar os olhos. Uma vibração luxuriante atravessa continuamente Chloé, a mais casta das cidades. Se homens e mulheres se pusessem a viver seus sonhos fugidios, cada fantasma tornar-se-ia uma pessoa com quem começar uma história de perseguições, simulações, mal-entendidos, choques, opressões: e cessaria de girar o carrossel das fantasias. (As Cidades Invisíveis. Ítalo Calvino.)
Sim, sou apenas um viandante, um peregrino sobre a terra! E vocês são algo mais do que isso?(J. W. Goethe. Os Sofrimentos do Jovem Werther)
Esse eu tomei emprestado do blog do Sales...http://.fragmensidade.blogspot.com/Basta-me um pequeno gesto, feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu para sempre te leve... — mas só esse eu não farei. Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes...— palavra que não direi. Para que tu me adivinhes, entre os ventos taciturnos, apago meus pensamentos, ponho vestidos noturnos, — que amargamente inventei. E, enquanto não me descobres, os mundos vão navegando nos ares certos do tempo, até não se sabe quando... — e um dia me acabarei.Cecília Meireles. Timidez
Gosto dos amores escondidosdos beijos roubadosdos códigos secretos dos amantesa pele derretendo-see o coração disparadono simples pensamentoda pele do outroos braços do outroo calor do outro(Lençóis, 2004)
O mundo é pequenopara o tamanho da minha mente.Minhas vontades transbordam além de meu corpoe são plasma ao redor de mim.Eu as sinto na pelee viajoestou em todos os lugaresnos que sinto saudadesmesmo nos que nunca fui.Isso me revolve por dentropalpita o coração... palpites...Palpites em mim, Deuse deixe-me transbordar por todo teu mundo.(Lençóis, 2004)