SonharMais um sonho impossívelLutarQuando é fácil cederVencer o inimigo invencívelNegar quando a regra é venderSofrer a tortura implacávelRomper a incabível prisãoVoar num limite improvávelTocar o inacessível chãoÉ minha lei, é minha questãoVirar esse mundoCravar esse chãoNão me importa saberSe é terrível demaisQuantas guerras terei que vencerPor um pouco de pazE amanhã, se esse chão que eu beijeiFor meu leito e perdãoVou saber que valeu delirarE morrer de paixãoE assim, seja lá como forVai ter fim a infinita afliçãoE o mundo vai ver uma florBrotar do impossível chão(Sonho Impossível, versão Chico Buarque e Ruy Guerra)
Quantas coisas quero te dizerQuantas idéias tuas quero saberQuantos anseios tenho pra te contarNo entanto esse espaço-tempo entre nósA colecionar minhas balsas de ilusões.(Lençóis, agosto de 2004)
Sabiagosto de você chegar assimarrancando páginas dentro de mimdesde o primeiro diaSabiaapagando filmes geniaisrebobinando séculosmeus velhos carnavaisminha melancoliaSabiaque você ia trazer seus instrumentosinvadir minha cabeçaonde um dia tocava uma orquestrapra companhia dançarSabiaque ia acontecer você um diae claro que já não me valeria nadatudo o que eu sabiaum dia.(Lola, Chico Buarque)
Se demora el trillo que va al cielose demora el día de mi vueloy yo me impacientoy me sueño al vientoSe demora el pájaro cantorse demora el verdadero amorse demorase demorapero no olvidaré que hay aurora.(Se demora. Sílvio Rodríguez)
Para Marcel AlezTens em teu nome mar e céuno entanto eres a linha do horizonte:tênuemutantecoloridaimagináriamas totalmente real.
Me pregunto qué negocio es ésteen que hasta el deseo es un consumoQué me haré cuando facture el sol?Pero vuelvo siempre el rostro al estey me ordeno un nuevo desayunoa pesar del costo del amor.(Paladar, Sílvio Rodríguez)
Foto: Joel Calheiros
Amamos o que não conhecemos, o já perdido.O bairro que já foi arredores.Os antigos que não nos decepcionaram maisporque são mito e esplendor.Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.Os mais velhos com quem não conseguiríamosconversar durante um quarto de hora.As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.Os idiomas que mal deciframos.Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.Os amigos que não podem faltar porque já morreram.O ilimitado nome de Shakespeare.A mulher que está ao nosso lado e que é tão diversa.O xadrez e a álgebra, que não sei.(Nosso. Jorge Luis Borges)
Não acabarão com o amornem as rugasnem a distância.Está provado,pensado,verificado.Aqui levanto soleneminha estrofe de mil dedose faço o juramento:Amofirmefiel e verdadeiramente.(Maiakovski)
É essencial para o homem, no mais profundo, o fato de que ele mesmo se coloque uma fronteira, mas com liberdade, isto é, de modo que também possa superar novamente essa fronteira, situar-se além dela.A finitude a qual nos dirigimos limita sempre em algum lugar com o infinito do Ser físico ou metafísico. Nesta medida, a porta se converte na imagem do ponto divisório no qual o homem está ou pode estar realmente sem interrupção. A porta une de novo a unidade finita a que ligamos uma porção desenhada por nós do espaço infinito com este último; com a porta fazem fronteira entre si o limitado e o ilimitado, mas não na morta forma geométrica de um muro divisório, senão como a possibilidade da constante relação de intercâmbio (em contraposição à ponte que liga finito com finito); certamente, o cruzá-lo nos exime dessas solidezes e, previamente ao entorpecimento devido aos costumes de todos os dias, deve ter perdurado o sentimento maravilhoso de estar suspenso por um instante entre terra e céu.(...)Porque o homem é o ser que une, que sempre deve separar e que sem separar não pode unir (...). E do mesmo modo o homem é o ser fronteiriço que não tem nenhuma fronteira. O fechamento de seu ser-em-casa através da porta significa certamente que separa uma parcela da unidade ininterrupta do ser natural. Mas assim como a delimitação informe torna-se uma configuração, assim também sua delimitabilidade encontra seu sentido e sua dignidade pela primeira vez naquilo que a mobilidade da porta faz perceptível: na possibilidade de se sair a cada instante desta delimitação para a liberdade.(A ponte e a porta, 1835. George Simmel)
Não, solidão, hoje não quero me retocarNesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas(A mais bonita, 1989. Chico Buarque)
Hoje eu estou meio caracol...
HojeQueria só deitar numa pedrana beira de um rioescutar a água descer da cachoeiraentregar minha pele ao sole descompromissadamente esperar o mundo girar.
Palavra primaUma palavra só, a crua palavraQue quer dizerTudoAnterior ao entendimento, palavraPalavra vivaPalavra com temperatura, palavraQue se produzMudaFeita de luz mais que de vento, palavraPalavra dócilPalavra d'água pra qualquer molduraQue se acomoda em balde, em verso, em mágoaQualquer feição de se manter palavraPalavra minhaMatéria, minha criatura, palavraQue me conduzMudoE que me escreve desatento, palavraTalvez, à noiteQuase-palavra que um de nós murmuraQue ela mistura as letras que eu inventoOutras pronúncias do prazer, palavraPalavra boaNão de fazer literatura, palavraMas de habitarFundoO coração do pensamento, palavra(Palavra, 1989. Chico Buarque)
Foto: Mosman Júnior
"Ceci n´est pás une pipe"(René Magritte)O que eu escrevo não sou eu.O que eu escrevoé o que eu quero me mostrar.Eu, atriz.
Colcha de retalhos
A metáfora da colcha de retalhos há tempos me persegue mas nunca parei para explorá-la. Vamos lá...
Falar do meu mundo como uma colcha de retalhos na verdade é falar da minha relação com meu próprio mundo e meu universo paralelo. Universo interior, ulterior. Ou Uterior?
A colcha "de retalhos" está sempre em construção. Nela vou agregando os fragmentos de vida, de experiências. Uma coisa aqui, outra ali; um feixe de sol, uma borboleta, um amor proibido, um amor impossível, um desamor, um amor torto (engraçado o amor direito não dar poesia...). Sombras de árvores, cheiro de flores, terra, chão, casas tristes, casas caiadas, casas ao sol. Pessoas, olhares de pessoas, sorrisos de pessoas, até sobrancelhas de pessoas (lembrando de alguns amores). As sobrancelhas são os chapéus dos olhos. Os olhos são espaços da perder-se.
Muitas coisas coloco: coloco frases feitas, frases invertidas, frases escutadas, frases geniais; coloco palavras bonitas, coloco tristeza (como dizia o grande mestre, "é preciso um bocado de tristeza/ senão não se faz um samba não"). Coloco samba também.
Enfim, coloco tudo o que de alguma maneira me amarrou a um instante da vida. E vou tecendo a vida toda.
De maneira que esta colcha é minha veste.
Eu faço vestidos com ela, faço cenários para atuar, faço meu leito, onde me aninho.
E quem me vê, assim, quem passa por mim, vê a colcha toda, e ela pode envolver-me cada hora de um jeito. Mas só alguns se detém aos fragmentos, observa cada retalho.
Às vezes é preciso que eu a desconstrua para que os retalhos ganhem autonomia. Às vezes é preciso remexê-los, redistribuí-los, isolá-los, a depender de como quero minha alta costura.
Mas a colcha não sou eu.
Eu estaria por baixo dela. Ainda assim, desnudar-me não sei se seria possível.
Talvez seria como arrancar a pele, na qual ela talvez já esteja grudada. Talvez doesse, talvez eu não suportasse a dor e então morreria. Ou, suportando-a, esperaria o nascimento de uma nova pele, totalmente crua, pura, que fosse só eu mesma.
Mas essa já é uma outra história...
Colcha em FazimentoAnte a impossibilidade da completude,do ser pleno,o que nos resta?O que elegeremospara nos constituir?De quais fragmentos nos faremos?A insaciável busca no nunca realizável.
Colcha rasgada
Cadê meu caminho
que eu achei que estivesse aqui?