segunda-feira, abril 24, 2006

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

(Sonho Impossível, versão Chico Buarque e Ruy Guerra)

sábado, abril 22, 2006

Quantas coisas quero te dizer
Quantas idéias tuas quero saber
Quantos anseios tenho pra te contar

No entanto esse espaço-tempo entre nós
A colecionar minhas balsas de ilusões.

(Lençóis, agosto de 2004)

quinta-feira, abril 20, 2006

Sabia
gosto de você chegar assim
arrancando páginas dentro de mim
desde o primeiro dia

Sabia
apagando filmes geniais
rebobinando séculos
meus velhos carnavais
minha melancolia

Sabia
que você ia trazer seus instrumentos
invadir minha cabeça
onde um dia tocava uma orquestra
pra companhia dançar

Sabia
que ia acontecer você um dia
e claro que já não me valeria nada
tudo o que eu sabia
um dia.

(Lola, Chico Buarque)
Se demora el trillo que va al cielo
se demora el día de mi vuelo
y yo me impaciento
y me sueño al viento

Se demora el pájaro cantor
se demora el verdadero amor
se demora
se demora
pero no olvidaré
que hay aurora.

(Se demora. Sílvio Rodríguez)

quarta-feira, abril 19, 2006

Para Marcel Alez

Tens em teu nome mar e céu
no entanto eres a linha do horizonte:

tênue
mutante
colorida
imaginária
mas totalmente real.

segunda-feira, abril 17, 2006

Me pregunto qué negocio es éste
en que hasta el deseo es un consumo
Qué me haré cuando facture el sol?
Pero vuelvo siempre el rostro al este
y me ordeno un nuevo desayuno
a pesar del costo del amor.

(Paladar, Sílvio Rodríguez)

domingo, abril 16, 2006




















Foto: Joel Calheiros

Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que já foi arredores.
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está ao nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.

(Nosso. Jorge Luis Borges)
Não acabarão com o amor
nem as rugas
nem a distância.

Está provado,
pensado,
verificado.

Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:

Amo
firme
fiel
e verdadeiramente.

(Maiakovski)



sexta-feira, abril 14, 2006

É essencial para o homem, no mais profundo, o fato de que ele mesmo se coloque uma fronteira, mas com liberdade, isto é, de modo que também possa superar novamente essa fronteira, situar-se além dela.
A finitude a qual nos dirigimos limita sempre em algum lugar com o infinito do Ser físico ou metafísico. Nesta medida, a porta se converte na imagem do ponto divisório no qual o homem está ou pode estar realmente sem interrupção. A porta une de novo a unidade finita a que ligamos uma porção desenhada por nós do espaço infinito com este último; com a porta fazem fronteira entre si o limitado e o ilimitado, mas não na morta forma geométrica de um muro divisório, senão como a possibilidade da constante relação de intercâmbio (em contraposição à ponte que liga finito com finito); certamente, o cruzá-lo nos exime dessas solidezes e, previamente ao entorpecimento devido aos costumes de todos os dias, deve ter perdurado o sentimento maravilhoso de estar suspenso por um instante entre terra e céu.
(...)
Porque o homem é o ser que une, que sempre deve separar e que sem separar não pode unir (...). E do mesmo modo o homem é o ser fronteiriço que não tem nenhuma fronteira. O fechamento de seu ser-em-casa através da porta significa certamente que separa uma parcela da unidade ininterrupta do ser natural. Mas assim como a delimitação informe torna-se uma configuração, assim também sua delimitabilidade encontra seu sentido e sua dignidade pela primeira vez naquilo que a mobilidade da porta faz perceptível: na possibilidade de se sair a cada instante desta delimitação para a liberdade.

(A ponte e a porta, 1835. George Simmel)

quinta-feira, abril 13, 2006

Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas


(A mais bonita, 1989. Chico Buarque)
Desfecho.
Fecho?

quarta-feira, abril 12, 2006

Hoje eu estou meio caracol...
Hoje
Queria só deitar numa pedra
na beira de um rio
escutar a água descer da cachoeira
entregar minha pele ao sol
e descompromissadamente
esperar o mundo girar.

terça-feira, abril 11, 2006

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d'água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez, à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra

(Palavra, 1989. Chico Buarque)
Foto: Mosman Júnior


"Ceci n´est pás une pipe"
(René Magritte)

O que eu escrevo não sou eu.
O que eu escrevo
é o que eu quero me mostrar.

Eu, atriz.
Colcha de retalhos

A metáfora da colcha de retalhos há tempos me persegue mas nunca parei para explorá-la. Vamos lá...

Falar do meu mundo como uma colcha de retalhos na verdade é falar da minha relação com meu próprio mundo e meu universo paralelo. Universo interior, ulterior. Ou Uterior?
A colcha "de retalhos" está sempre em construção. Nela vou agregando os fragmentos de vida, de experiências. Uma coisa aqui, outra ali; um feixe de sol, uma borboleta, um amor proibido, um amor impossível, um desamor, um amor torto (engraçado o amor direito não dar poesia...). Sombras de árvores, cheiro de flores, terra, chão, casas tristes, casas caiadas, casas ao sol. Pessoas, olhares de pessoas, sorrisos de pessoas, até sobrancelhas de pessoas (lembrando de alguns amores). As sobrancelhas são os chapéus dos olhos. Os olhos são espaços da perder-se.
Muitas coisas coloco: coloco frases feitas, frases invertidas, frases escutadas, frases geniais; coloco palavras bonitas, coloco tristeza (como dizia o grande mestre, "é preciso um bocado de tristeza/ senão não se faz um samba não"). Coloco samba também.
Enfim, coloco tudo o que de alguma maneira me amarrou a um instante da vida. E vou tecendo a vida toda.
De maneira que esta colcha é minha veste.
Eu faço vestidos com ela, faço cenários para atuar, faço meu leito, onde me aninho.
E quem me vê, assim, quem passa por mim, vê a colcha toda, e ela pode envolver-me cada hora de um jeito. Mas só alguns se detém aos fragmentos, observa cada retalho.
Às vezes é preciso que eu a desconstrua para que os retalhos ganhem autonomia. Às vezes é preciso remexê-los, redistribuí-los, isolá-los, a depender de como quero minha alta costura.
Mas a colcha não sou eu.
Eu estaria por baixo dela. Ainda assim, desnudar-me não sei se seria possível.
Talvez seria como arrancar a pele, na qual ela talvez já esteja grudada. Talvez doesse, talvez eu não suportasse a dor e então morreria. Ou, suportando-a, esperaria o nascimento de uma nova pele, totalmente crua, pura, que fosse só eu mesma.
Mas essa já é uma outra história...

segunda-feira, abril 10, 2006

Colcha em Fazimento

Ante a impossibilidade
da completude,
do ser pleno,
o que nos resta?

O que elegeremos
para nos constituir?

De quais fragmentos
nos faremos?



A insaciável busca
no nunca realizável.

Colcha rasgada

Cadê meu caminho
que eu achei que estivesse aqui?